Os quatro grandes desafios da transformação digital

A consolidação da estratégia digital depende de uma série de iniciativas e mudanças estruturais. Para tanto, os líderes do ambiente empresarial devem estar preparados a enfrentar decisões de peso que necessitam de muito planejamento e, principalmente, coragem.

Em recente artigo do McKinsey Quarterly, foram apontados quatro dos aspectos principais que precisam ser combatidos para tornar a realidade digital uma transformação verdadeiramente escalável.

1.Combatendo o Desconhecimento Digital

Muitos líderes e gestores ainda não se dizem plenamente confiantes quando o termo “digital” aparece na conversa. E isso impacta diretamente as possibilidades de expansão de novos negócios, especialmente por duas razões.

Em primeiro lugar, a falta de intimidade com o termo pode levar a decisões precipitadas. A falta de critério na hora de avaliar qual a melhor solução tecnológica para aquele momento específico que a empresa vive acarreta em desperdício de recursos. O foco não deve estar naquela inovação que parece “legal” ou que ressoe como disruptiva para o mercado, mas sobretudo naquelas que realmente se adequem aos objetivos estratégicos futuros determinados pela empresa.

O segundo ponto refere-se ao modo como a maioria dos projetos digitais são conduzidos, muitas vezes sem uma diretriz bem definida. É bastante comum que os investimentos sejam pensados em etapas isoladas, de forma incremental. Essa não é, entretanto, a maneira mais eficiente de alcançar a escalabilidade que a transformação digital possibilita.

Isso deve-se especialmente ao fato de a economia digital ser muito rápida e dinâmica. Acompanhá-la requer implantações velozes bem como uma visão consolidada de que todas as etapas processuais, mesmo que indiretamente, estão interligadas. Assim, isolar o impacto de uma nova tecnologia, sem posicioná-lo no cenário maior da empresa, certamente impossibilita resultados verdadeiramente transformadores e que levam ao pioneirismo digital.

Além disso, a forma como grande parte das decisões financeiras estão sendo conduzidas dentro das empresas deve ser constantemente revisada. A economia digital mudou as regras e o ritmo do mercado, trazendo novas formas de ganhar e de perder dinheiro. Portanto, negligenciar esse movimento, prendendo-se a práticas tradicionais de gerenciamento financeiro, sem olhar para a realidade atual, pode ser extremamente arriscado.

2. Lutando Contra os Medos

Como dito anteriormente, o pioneirismo digital é uma conquista-chave para a garantir a ascensão de negócios futuros. Mesmo assim, muitos executivos ainda temem dar grandes passos nessa direção, talvez pela dificuldade em projetar os impactos e mensurar retornos.

Vencer essa inércia é fundamental e começa do entendimento de que a transformação digital é um movimento de dentro para fora. Em outras palavras, não se trata de uma incorporação passiva, mas sim de um esforço ativo que parte, sobretudo, das altas lideranças. Elas devem estar absolutamente atentas aos novos produtos e soluções tecnológicas que surgem, sabendo garimpar as que de fato trazem retornos escaláveis.

Os projetos digitais, portanto, requerem uma condução bastante organizada e programada. Mais do que isso, é preciso criar (ou consolidar) na cultura empresarial a ideia de que as mudanças não devem apenas ser seguidas, mas sobretudo impulsionadas. A transformação digital acontece para quem está disposto a se adiantar. É um processo complexo, conduzido por diversas mãos (empresas, fornecedores, governos, entre muitos outros) e que requer uma orquestração bastante corajosa.

Uma das maneiras mais eficientes de se vencer o medo da mudança é criar esforços que impulsionem os executivos à essa nova realidade. É preciso sair da empresa, olhar para fora. Para isso, treinamentos, benchmarks e a participação ativa em redes e comunidades de apoio são ações simples com resultados bastante interessantes. Afinal, com mais informação disponível à mesa, fica muito mais fácil tomar as decisões certas.

3. Combatendo a Adivinhação

A implementação da estratégia digital significa quase sempre caminhar por realidades nunca antes experimentadas. Cedo ou tarde, o grupo diretivo e gerencial das empresas estará diante de decisões que poderão mudar completamente o curso de grandes unidades de negócios e, por que não, do negócio como um todo. E isso tudo, claro, precisa ser acompanhado por respostas rápidas e bem embasadas, um grande desafio que a economia digital traz às empresas.

Dentro desse cenário, é muito comum um clima generalizado de ansiedade e incertezas. Qualquer passo pode representar milhões em ganhos ou em perdas. Por essa razão, é preciso blindar qualquer decisão de pensamentos adivinhatórios, frutos de uma construção estratégica em que faltam dados e um olhar crítico para a realidade.

Uma das maneiras de contornar esses ímpetos é criar mecanismos que embasem as decisões estratégicas associando-os aos resultados de negócios esperados com os investimentos digitais. Dessa forma, é possível avaliar com bastante clareza (afastando adivinhações desordenadas) qual o potencial que realmente existe por trás daquela nova tecnologia ofertada e quanto se deve investir (em dinheiro e tempo) nessa direção.

Diante de uma verdadeira metodologia de negócios digitais, as chances de se obter sucesso na implementação dos projetos aumenta drasticamente, especialmente porque é a partir da projeção fina dos resultados que se pode acompanhar o desempenho daquilo que foi planejado. Sem isso, tudo vira um grande jogo de sorte e azar.

Nesse sentido, as fases de testes (pilotos) que antecedem as implementações representam uma etapa crucial. Elas devem ser conduzidas com a máxima responsabilidade e com real engajamento por parte das equipes envolvidas.

Nessa trajetória, as tecnologias de IoT comportam-se como importantes aliadas. Por revolucionarem a forma de obtenção de dados (agora em tempo real), foi possível garantir um controle muito mais eficiente dos processos e, por consequência, a tomada de decisão com elevado grau de confiabilidade.

A adivinhação na era digital é facilmente vencida quando a estratégia de negócios une a prática tradicional e consolidada de negócios aos novos critérios e mecanismos que surgem. Dessa forma é possível avaliar com muito mais assertividade o real impacto das tecnologias e sua possibilidade de expansão dentro da empresa.

4. Combatendo a Difusão

A alta velocidade imposta pela economia digital e o elevado grau de incerteza experimentado por muitas empresas em torno da adoção de novas tecnologias dificultam, muitas vezes, o foco no trabalho de implementação.

Na tentativa de não perder o ritmo, as empresas viram verdadeiros palcos de testes desordenados cuja falta de mensuração leva a interrupções de projetos seguidas de muita frustração.

Uma das importantes saídas apontadas pela McKinsey parte da fixação de um portfólio de iniciativas, categorizando as diferentes fases de maturação dos projetos que nascem na empresa. Para tanto, é muito importante saber direcionar as perguntas certas: quais produtos e serviços digitais emergentes faltam em meu portfólio? Quais ofertas de produtos e elementos do modelo operacional existente devem ser digitalizados ou totalmente recriados digitalmente para melhorar a jornada do cliente? Quais áreas devem ser abandonadas?

Outra saída apresentada envolve a redefinição dos patamares de riscos que uma empresa está acostumada a aceitar. É preciso abraçar a ideia de que o sucesso do futuro será realidade para aqueles que tenham abraçado grandes mudanças a partir de hoje. Nesse sentido, realocar grandes volumes de recursos, reordenar processos de forma radical e repensar os investimentos na adoção de novas tecnologias são apenas alguns dos movimentos possíveis para gerar mudanças efetivas.

As estratégias de sucesso, nessa nova fase da economia digital, costumam repousar em grandes movimentos. Isso, claro, parte de um corpo diretivo potente capaz de expandir com clareza a necessidade de transformação para todo o restante da empresa. Núcleos de negócios digitais devem ser criados com vistas a manter um canal de comunicação direto com a cúpula diretiva, informando-a constantemente dos desafios enfrentados. Dessa forma, cria-se uma dinâmica gerencial verdadeiramente disruptiva e que transforma digitalmente a realidade das empresas.

 

*Este artigo tomou como base a publicação do McKinsey Quarterly: “Digital strategy: The four fights you have to win”.  Todos os créditos são reservados aos autores Tanguy Catlin, Laura LaBerge, and Shannon Varney.