Os heróis estão mortos. Sem spoilers

Sua equipe, departamento ou até mesmo a empresa inteira dependem de super-heróis para resolver aqueles problemas mais complexos? Então, é hora de parar e refletir.

Com a palavra, Leonardo Müller.


Chamada 1: o cliente acaba de acrescentar escopo em um projeto com duração de 30 dias e com data de entrega para amanhã, sem falta. Não há como adiar, o prazo do edital do governo fecha amanhã e, por isso, a entrega tem que ocorrer! A câmera foca no diretor responsável: rosto tenso, pensativo, prestes a tomar uma decisão de impacto. Ele pensa: “só há uma forma de lidar com esta situação.” Corta para a chamada 2.

Chamada 2: o sistema travou no maior cliente. É um bug complexo em um subsistema desenvolvido há 10 anos. É meia noite da virada de ano e nós precisamos resolver isso agora! A câmera foca no diretor responsável: rosto tenso, pensativo, prestes a tomar uma decisão de impacto. Ele pensa: “só há uma forma de lidar com esta situação.”

E agora, quem poderá nos defender? Sim, ele: o super-herói corporativo, o salvador da pátria!

Aposto que você tem ou já teve um em sua empresa. Os heróis corporativos possuem algumas características em comum:

heróis corporativos

Minha pergunta é: por que existem estes heróis? E minha resposta é: porque existe alguma falha de gestão.

Uma empresa, ou parte dela, não deveria ficar refém do super-herói. Aliás, heróis fazem reféns?

Para resolver isso, eu proponho duas saídas:

                  1- Demitir o herói. A empresa pode passar por uma ou outra saia justa, mas invariavelmente as funções serão assumidas por outras pessoas. E pasmem: algumas funções, senão todas, serão realizadas de forma melhor e mais sustentável;

                 2- Incluir o herói em uma equipe onde a liderança forçará o compartilhamento de conhecimento. Usar técnicas de mentoring, lições aprendidas, seminários internos, programação em pares, etc. Tudo isso ajuda, e muito, a disseminar conhecimento.

Eu já fui herói. E sim, tinha todas as características que listei. Felizmente, eu aprendi a gerir e desenvolver pessoas para dividirmos responsabilidades. Aprendi que conhecimento não é doado; é compartilhado e dá frutos. E aprendi com coaching, mentoring e desenvolvendo equipes. Eu, claro, tive dificuldades. E minha maior dificuldade foram as vítimas!

Lideranças reféns não inovam

Lembra-se das chamadas 01 e 02 ? O problema é que uma cultura de heróis não se cria sozinha. Ela se cria porque os líderes gostam dessa cultura. Os líderes amam ter aquela pessoa para quem podem passar qualquer bola e irem dormir com a certeza de que o objetivo será atingido. Afinal, o herói vai virar noites e irá resolver o problema que ninguém mais consegue. As lideranças acabam criando até uma relação de cumplicidade com eles.

Mas qual o efeito de médio e longo prazo? As lideranças viram reféns. Algumas não se importam (provavelmente adquiriram síndrome de Estocolmo). A empresa, que poderia absorver esse conhecimento e tornar a resolução dos problemas uma coisa orgânica e estruturada, passa a funcionar de forma torta, divide-se. Uma parte dela resolve os problemas corriqueiros e que demandam menos capacidade. O que é importante de fato deixa para os heróis resolverem. E aí começa um efeito devastador sobre o aprendizado organizacional. heróis corporativos

O chamado efeito pigmalião refere-se às expectativas que uma professora tem sobre o desempenho escolar do aluno. Robert Rosenthal e Lenore Jacobsen, em 1960, realizaram testes de inteligência em crianças de 1º a 6º anos de uma escola. As professoras não tiveram acesso aos resultados dos testes de inteligência. Os autores sortearam uma meia dúzia de alunos por turma, independentemente do seu QI, e disseram para as professoras que aqueles eram os mais talentosos.

O resultado foi que elas deram mais atenção às crianças que acreditavam ter um melhor potencial. Eram mais gentis, davam mais atenção, explicavam mais, chamavam mais ao quadro para resolver problemas, reforçavam mais o comportamento de estudar, etc. Ao final do ano, as crianças supostamente identificadas como mais talentosas, tiveram um crescimento maior nos seus testes de QI, independentemente da inteligência inicial. 

Será que se eu trato um herói como mais capaz e o restante dos colaboradores como menos capazes, eu não estou replicando o efeito pigmalião?

Não basta ser competente. Alguém precisa acreditar nisso

Veja bem, não estou comparando questões ligadas à senioridade. Existem problemas mais complexos que devem ser passados para quem tem mais experiência. Mas, do meu ponto de vista, obrigatoriamente outras pessoas devem ser preparadas para assumirem o mesmo tipo de problema. É preciso acreditar na capacidade das pessoas. Um herói corporativo só vira herói porque, algum dia, alguém acreditou em sua capacidade e ele se mostrou competente. Que tal dar a mesma chance a todos?

Eu acredito firmemente nas pessoas e em suas capacidades. E que se todos forem desenvolvidos de forma equitativa nós poderemos criar uma realidade onde os heróis estarão mortos e todos viverão felizes para sempre.

E aí, vamos acabar com os heróis?