Eastgate Centre — prédio sustentável a partir dos cupins

 

                                                                                  Fonte: www.biomimicry.net

Se toda a história do planeta — desde seu surgimento até este exato momento — coubesse nos 12 meses do calendário (365 dias), 1 segundo equivaleria a 144 anos. Por essa perspectiva, a vida biológica apareceria apenas no dia 25 de fevereiro (3.8 bilhões de anos atrás) e a sociedade industrial, tal como conhecemos hoje, apenas nos últimos 2 segundos antes do ano terminar.

Ao longo da evolução, acredita-se que 99,9% das espécies que já passaram pela Terra foram extintas, razão mais que o suficiente para provar a incrível capacidade de sobrevivência do 0,1% que resistiu. Essa pequena parcela conseguiu vencer todos os desafios que, diariamente, a Natureza impôs e provou ser suficientemente adaptada para propagar seus genes com sucesso.

Há aproximadamente 20 anos, a palavra Biomimética começou a se expandir no meio científico, como uma nova ciência que entende a Natureza (e sua incomparável capacidade de resistir) como uma fonte incontável de estruturas, processos e sistemas bem sucedidos que, se analisados e aplicados à realidade humana, podem resultar em um processo de inovação contínua.

Por essa razão, a Biomimética é hoje tão promissora, tanto no ambiente acadêmico quanto no empresarial, sendo considerada uma das ciências com maior potencial de progresso nos próximos anos, junto claro à Ciência de Dados, Machine Learning, Inteligência Artificial, Blockchain e Internet das Coisas (IoT).

Inovação humana integrada ao meio ambiente

O olhar biomimético, sobretudo voltado à inovação, busca na Natureza respostas para dilemas humanos que precisam ser vencidos. A ideia é observar estruturas de diferentes espécies, processos metabólicos e químicos e até mesmo o funcionamento de grandes ecossistemas para embasar o desenvolvimento de novas tecnologias.

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Além de impulsionar a inovação, a Biomimética funciona como um valioso benchmark às empresas que desejam diminuir os impactos danosos ao meio ambiente. A Natureza é certamente o maior exemplo de autossustentabilidade, onde não há faltas, nem excessos. Ela é capaz de produzir e consumir recursos em um perfeito equilíbrio cíclico e dinâmico, essencial à manutenção das espécies. Ao fomentarem a Biomimética em seus negócios, as empresas automaticamente se aproximam da sustentabilidade na prática e cumprem seu papel socioambiental com responsabilidade.

Eastgate — 35% menos energia a partir dos cupins

O Eastgate Centre é um grande prédio comercial, no Zimbábue, que usou a Biomimética para resolver um dos maiores problemas daquela região: a oscilação térmica.

Na cidade de Harare (onde está o Eastgate), as temperaturas podem ultrapassar 40°C durante o dia e baixar para menos de 10°C à noite. Por essa razão, os sistemas de ar condicionado costumam ser bastante sobrecarregados e consumir muita energia.

Na fase de projeto do edifício, engenheiros e arquitetos usaram a Biomimética para viabilizar a construção sem gastos milionários com refrigeração. E a solução desse impasse veio de dentro dos cupinzeiros.

Os cupinzeiros são grandes colônias capazes de manter a temperatura, a umidade e a ventilação sempre constantes em seu interior. Isso em razão dos inúmeros pequenos buracos que cobrem toda a sua estrutura, permitindo a livre circulação do ar e a troca de temperatura.

No Eastgate, essa mesma dinâmica de ventilação foi aplicada. A alta massa térmica das paredes revestidas por tijolos e das lajes de concreto utilizadas permitiu absorver o calor sem a forte elevação da temperatura interna. Além disso, o prédio foi construído com um sistema de circulação que, conforme o passar do dia, expulsa o ar quente para fora, mantendo o interior sempre mais fresco. Como resultado, o Eastgate é 35% mais eficiente em regulação térmica e no consumo de energia, comparado a outros prédios da região.

Soluções inteligentes criam resultados escaláveis e sustentáveis

A Biomimética está diretamente ligada ao conceito de economia circular. Por esse raciocínio, cada simples etapa de um processo é protagonista dentro de um complexo ecossistema econômico, ambiental e social, em que todos os recursos são reaproveitados ao longo da cadeia produtiva.

A fluidez e a interdependência dessas etapas — que funcionam como agentes ao mesmo tempo passivos e ativos — impulsionaram o desenvolvimento de tecnologias inteligentes que, inegavelmente, vão muito além de algoritmos fechados em si mesmos. Os sistemas de IoT (Internet das Coisas) supriram a necessidade de integrar um número crescente de dispositivos e equipamentos, de tal forma a permitir o controle automático do fluxo produtivo.

Mais recentemente, esses sistemas também passaram a seguir os ensinamentos da Biomimética. Seus idealizadores entenderam a profunda relação entre eles e as premissas que regem o dinamismo dos seres vivos, o que inclui a necessidade de reagir ao meio ambiente de forma inteligente e sempre otimizada (dado a escassez dos recursos). Com isso, os processos tornaram-se menos custosos e um novo mundo de oportunidades de negócios se abriu a partir da análise inteligente dos dados coletados.

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Desse modo, a Biomimética surge para desafiar o tradicional pensamento de que progresso e Natureza constituem uma trade-off. Ela prova que é possível, a partir da aparente simplicidade do “natural”, construir e modificar realidades complexas que impactam diretamente vidas humanas e o todo o ecossistema que as mantém.