Biomimética: como as falhas podem servir de insumo para a evolução?

Foi o pesquisador libanês Nassim Nicolas Taleb quem criou o conceito de “antifragilidade”. Segundo ele, o antifrágil é aquele que não só se opõe à ideia de fragilidade, mas sobretudo ultrapassa os conceitos de resiliência e robustez, muito difundidos atualmente no mercado. Isso porque o resiliente é aquele que tem apenas a capacidade de resistir aos choques, sempre mantendo o status quo. Por outro lado, o antifrágil é aquele que utiliza a dificuldade para ficar ainda mais forte.

Ao longo dos últimos milhões de anos, a Natureza tem se mostrado um dos exemplos mais perfeitos de antifragilidade. As espécies, processos e sistemas de sucesso não foram aquelas que apenas sobreviveram à seleção natural, mas sim as que se adaptaram frente aos desafios, criando base para evolução constante.

E com o desenvolvimento tecnológico não tem sido diferente. O mercado anseia por inovações inteligentes que não apenas corrijam problemas, mas sobretudo aprendam com eles. Os erros (tão subvalorizados tempos atrás) tornaram-se um instrumento poderoso de aprendizado e fundamental para garantir a antifragilidade dos processos.

Árvore: exemplo de sistema bottom-up autogerenciado

Já está mais do que claro que, nos últimos anos, a Natureza tem funcionado como uma importante fonte de inspiração para uma série de novos métodos de geração e distribuição de energia sustentáveis. A grande demanda atual, entretanto, inclina-se para o esforço de analisar os diferentes sistemas de comunicação do meio ambiente e, assim, assegurar que não haja desperdício e sobrecarga na utilização de recursos. Nessa jornada, a Biomimética – e seu propósito único de esmiuçar formas, processos e sistemas biológicos com vistas a aplicações humanas – tem sido uma aliada fundamental.

Janine Benyus – o grande nome quando falamos dessa ciência – defende que a maioria dos sistemas biológicos possui alta capacidade de comunicação a qual desempenharia o papel de um sistema de controle. Para ela, os casos de arquitetura processual mais avançados na Natureza não são aqueles que transmitem a informação top-down, mas justamente o inverso: os capazes de obter e dissipar comandos bottom-up, com vistas ao gerenciamento eficiente das demandas e ao combate e até mesmo punição dos desperdícios.

Como exemplo, Janine relembra a arquitetura das árvores. Nesses organismos, as folhas caem quando não são mais úteis ao sistema, antes mesmo de sobrecarregá-lo com sua perda de função. Mais do que isso, ao pousarem no solo, elas funcionam como adubo que auxilia na manutenção e no crescimento de todo o conjunto. Assim, a árvore funciona como um sistema que se autodefende, capaz até mesmo de tirar proveito de estruturas periféricas inoperantes. O conjunto só entra em colapso quando um problema realmente grande acomete a raiz, seu verdadeiro núcleo de operação. Benyus acredita que esse é um dos inúmeros exemplos que provam a antifragilidade* dos sistemas biológicos. De um problema nasce não só uma solução, mas uma oportunidade.

Smart Grids: antifragilidade inspired by nature

Algo semelhante acontece com as atuais Smart Grids que, cada vez mais, caminham para atingir a antifragilidade nos processos de distribuição e gerenciamento de energia elétrica.

A grande razão por trás desse progresso está especialmente na Inteligência Artificial e na Internet das Coisas (IoT). Quando postos em conjunto e processados por softwares de alta performance, os dados obtidos das mais diversas etapas dos processos produtivos garantem que a tomada de decisão parta de uma estrutura pulverizada bottom-up (tal como as árvores). A retroalimentação de dados e comandos garante correções constantes, sem que o sistema como um todo tenha que ser envolvido em um problema pontual e simples. Mais do que isso, esses desvios – inevitáveis a qualquer processo – servem de substrato para o cerne desses sistemas, os quais tornam-se ainda mais inteligentes e adaptáveis a mudanças. Com isso, eles passam a tomar conta de si próprios com baixíssima intervenção humana (novamente, tal como uma árvore que se autorregula).

Antes do advento da IoT e de toda a infraestrutura de conectividade esse tipo de mecanismo não era possível. Os sistemas eram apenas complexos, mas não adaptáveis, ou seja, não havia comunicação e inteligência suficientes para que reagissem (como um ser vivo) e superassem os desafios de forma descentralizada.

Leia também:
Biomimética: o mais eficiente benchmarking para a inovação

Hoje, a situação é bastante diferente. As Smart Grids avançam em direção à antifragilidade. Elas se estruturam a partir de diferentes eixos de comunicação que interagem entre si, enquanto conseguem se adaptar, evoluir e se organizar a partir de regras simples. Além disso, se uma parte desse conjunto é modificada ou substituída (por exemplo, em razão de algum avanço tecnológico), todo o sistema é capaz de novamente se adaptar, elevando a qualidade de seu funcionamento. Assim, as Smart Grids se mantêm vivas, operantes e autorreguláveis.

Como se percebe, a Natureza surgiu do caos e fez dele o grande suprimento para pontapés evolutivos constantes. E tal como ela, a arquitetura, gerenciamento e desenvolvimento das Smart Grids parecem caminhar na mesma direção. Esses sistemas passaram a nutrir sua inteligência a partir de mudanças e problemas inesperados que, progressivamente, deixam de ser entendidos apenas como um empecilho. Desse modo, garante-se o autogerenciamento adaptativo de processos vivos e dinâmicos, fundamentais à antifragilidade.

 

* Importante deixar claro que Janine não usa explicitamente o termo antifragilidade, mas seu raciocínio permite perfeitamente a correlação.