Tecnologias com bioinspiração devem movimentar US$ 1,5 trilhão até 2030

A Biomimética tem sido pauta de importantes publicações nessas últimas semanas, mostrando o crescimento de novos projetos baseados na bioinspiração dentro das empresas.

A revista Exame falou sobre como a Biomimética pode “copiar” a Natureza para gerar bilhões em novos negócios. Um estudo da Universidade Nazarena de Point Loma, na Califórnia, estimou que a ciência deverá representar 300 bilhões de dólares no PIB dos Estados Unidos e gerar 1,6 milhão de empregos no país até 2025.

A Época Negócios, por sua vez, trouxe dados ainda mais impressionantes. Uma recente pesquisa da Fermanian Business & Economic Institute afirma que tecnologias e negócios com bioinspiração vão movimentar mais de US$ 1,5 trilhão até 2030. Para tanto, as iniciativas não devem ficar restritas apenas à reciclagem de materiais, mas sobretudo “mergulhar em conceitos mais complexos, que de fato estimulem o desenvolvimento da economia circular”.

Já a EBC falou sobre como a Biomimética pode ser aplicada em coisas intangíveis, como estratégias de gestão. A ideia seria entender de que maneira os sistemas e processos naturais se comportam e transferir os ensinamentos para dentro das empresas, criando novas maneiras de interação e criação.

A bioinspiração pode ser aplicada em qualquer segmento

Quando se fala em Biomimética no Brasil, um dos grandes expoentes é a bióloga e fundadora da Bio-Inspirations, Alessandra Araújo. Ela costuma definir a metodologia como a ponte que interliga “a ciência e as demandas contemporâneas do mundo”.

Em recente entrevista à V2COM, Alessandra fez questão de destacar que a Biomimética é aplicável a qualquer segmento de atuação:

Eu acho que não existe nenhuma restrição porque, fundamentalmente, o Biomimicry Thinking, ou a Biomimética, é um modelo de criação, uma forma de pensamento. E, em razão disso, ela é aplicada e aplicável em qualquer área e em qualquer setor. Eu acredito, inclusive, que ela permite até mesmo a expansão dos próprios negócios, pois toda vez que trabalhamos com cenários análogos, criamos momentos paralelos.

bioinspiração
Alessandra Araújo, fundadora da Bio-Inspirations

Embora ainda em fase inicial no Brasil, a Biomimética — que foi eleita pela Forbes como uma das cinco principais tendências que vão orientar os negócios do futuro — já compõe linhas de pesquisa e modelos de negócios em empresas que estão na vanguarda da inovação. Seja na arquitetura, medicina, engenharia, a bioinspiração está cada vez mais consolidada como uma poderosa aliada para vencer os desafios da modernidade.

Um deles refere-se à geração e distribuição de energia proveniente de fontes renováveis. Foi a partir de um estudo biomimético das baleias jubartes, por exemplo, que cientistas da West Chester University conseguiram construir ventiladores e lâminas capazes de reduzir em cerca de 40% a resistência mecânica do ar, elevando a eficiência dos sistemas eólicos.

As pesquisas com esse novo padrão de pás são importantes não apenas para elevar a performance das usinas eólicas já existentes, mas também para viabilizar a instalação de outras em locais onde os ventos são considerados muito fracos para a geração de energia.

Leia a entrevista completa da V2COM com Alessandra Araújo, referência internacional em Biomimética

Um outro exemplo de bioinspiração, também relacionado à energia sustentável, teve como ponto focal o estudo das plantas. Foram elas as grandes inspiradoras para o desenvolvimento das atuais usinas solares. A partir da observação das folhas das samambaias, pesquisadores australianos desenvolveram eletrodos cuja capacidade de armazenamento de energia é ao menos 3.000% maior do que as tecnologias mais avançadas existentes. A ideia partiu de pequenas estruturas nanofotônicas presentes na superfície das folhas que são altamente eficientes para o transporte de água e o armazenamento de energia.

Softwares Biomiméticos: a Natureza de mãos dadas com a tecnologia de ponta

O desenvolvimento de softwares também tem sido amplamente impactado por estudos biomiméticos.

Estudos mostram que nas dinâmicas naturais, a mensagem biológica não costuma ser endereçada a um receptor em particular. Ela simplesmente é lançada no ambiente até ser decodificada por outrem, de tal modo que aconteça a assimilação de seu conteúdo e a tomada de ação.

Com os softwares “humanos”, entretanto, a situação se desenrola de forma diferente. Quando analisamos, por exemplo, a Arquitetura Orientada a Serviços (SOA) — um modo de organizar sistemas distribuídos e baseados em componentes —, a comunicação acontece por mensagem ou API, sempre com o endereçamento a um receptor identificado. E é justamente por essa razão que os softwares costumam ser mais previsíveis e controlados quando comparados aos sistemas biológicos.

Veja também:
Biomimética: a nova geração de tecnologias ‘Inspired by Nature”

Ao olharmos para as tecnologias de Internet das Coisas (IoT), encontramos uma situação intermediária entre os sistemas da Natureza e o que aqui denominamos por “softwares humanos”. Isso porque os dados provenientes dos infinitos terminais conectados pela tecnologia funcionam de um modo semi-biológico.

Explicando melhor, os dados nos sistemas de Internet das Coisas só se transformarão em mensagem (ou seja, informação com sentido), após serem recebidos e trabalhados pelas plataformas de IoT. Note que, embora a geração de resposta requeira necessariamente o trabalho dos softwares (e daí sua proximidade com o aspecto “humano”), os dados nunca deixam de ser enviados, mesmo que não haja um endereçamento exato naquele momento, algo semelhante aos sistemas naturais.

Factory as a Forest: bioinspiração para as fábricas do século XXI

O conceito “Factory as a Forest” (Fábricas como Florestas) é um outro importante exemplo de aplicação da Biomimética. Ele foi introduzido no SB 18 Vancouver e, desde então, tem despertado bastante curiosidade em manufaturas que desejam transformar os processos produtivos, tornando-os autossustentáveis, equilibrados e circulares como os ecossistemas da natureza.

A ideia partiu de um estudo biomimético que esmiuçou o mecanismo de funcionamento das florestas as quais, ao longo dos últimos bilhões de anos, têm se mostrado ótimas mantenedoras do status quo, sem perder a elevada capacidade de adaptação e regeneração.

Factory as a Forest
Factory as a Forest: Penang, Malásia

O estudo serviu de base para que os processos produtivos (no caso, da empresa Interface em parceria com a Biomimicry 3.8) fossem analisados com o objetivo de encontrar meios de torná-los ainda mais eficientes, com instalações de pegada ambiental zero e elevado desempenho, tal como todos os ecossistemas globais.

Percebeu-se que, para tanto, era fundamental transformar os processos ligados à economia linear em uma nova realidade mais próxima do conceito circular. Sem isso, é praticamente impossível emular a natureza com perfeição, já que nela reina uma exata proporção entre o que é criado e o que é consumido, num ciclo plenamente autossustentável.

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