Até debaixo d’água: banco de dados para monitorar vazamento de gás

O barulho das bolhas no fundo do oceano é capaz de revelar se ali está ocorrendo um vazamento de gás e quais suas características. Entender este fenômeno é importante para um grupo de pesquisadores que deseja construir cavernas nas camadas de rocha sobre o pré-sal para estocar gás carbônico (CO2) – o composto está presente nos reservatórios de petróleo e é um dos principais responsáveis pelo efeito estufa, por isso a preocupação em armazená-lo e evitar a liberação no meio ambiente.

O OceanPod é um cilindro que contém um gravador, condicionadores de sinais, hidrofone e pilhas – Foto: Divulgação/RCGI
O OceanPod é um cilindro que contém um gravador, condicionadores de sinais, hidrofone e pilhas – Foto: Divulgação/RCGI

Estes cientistas fazem parte do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI) e estão montando um banco de dados acústicos na USP, a primeira instituição de pesquisa brasileira a ter um repositório do gênero no País. A ideia é que esta coleção de sons, assim como os hardwares e softwares que estão em desenvolvimento para sua coleta e análise, ajude a monitorar possíveis vazamentos de CO2 nos campos de exploração.

O banco de dados é composto de material obtido em campo e em laboratório. Está em constante crescimento e, atualmente, totaliza aproximadamente 60 horas de gravação. Os pesquisadores registraram os sons das plumas de bolhas originadas por vazamentos de gases simulados debaixo d’água em diversas vazões, pressões e locais.

“Vazamentos, geralmente, formam uma pluma de bolhas que faz barulho ao ser gerada sob a água. Nossa meta é conhecer a ‘assinatura’ dos ruídos das plumas de bolhas para poder detectá-las, quantificá-las e diferenciá-las de outros tipos de ruído”, explica Linilson Rodrigues Padovese, coordenador desse projeto no RCGI.

O professor também faz parte do Laboratório de Acústica e Meio Ambiente (Lacmam) do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica (Poli) da USP.

A equipe começou a coletar dados experimentais sobre vazamentos no intuito de validar os algoritmos de Inteligência Artificial desenvolvidos para a detecção desses fenômenos. “Fizemos simulações de vazamentos para obter os dados. Foram três saídas a campo: duas no mar e em uma represa, e conseguimos avançar bastante no banco de dados. Também usamos o tanque do nosso laboratório aqui na Poli, e ainda o tanque de mergulho do Cepeusp, o clube poliesportivo da USP. Já temos um bom banco de dados, com diferentes tamanhos de plumas de bolhas e para diferentes vazões.”

Para simular os vazamentos, os pesquisadores usaram um reservatório de ar comprimido e mangueiras, com instrumentação para controle da pressão e vazão do ar e com orifícios de saída de diferentes diâmetros.

“Para cada som gravado nós sabemos qual foi a vazão de ar. Quando simulávamos os vazamentos, já estipulávamos a vazão: por exemplo, um litro por minuto; 10 litros por minuto. Assim, sabemos a assinatura da pluma de cada vazão, para cada uma das vazões que estabelecemos. Ou seja: temos dados para estabelecer comparações.”

Matéria original: Jornal da USP