A próxima Revolução Industrial virá da Biotransformação

A próxima Revolução Industrial virá da Biotransformação

Sob o tema "Nature-Inspired Technology and the Future of Manufacturing", a segunda edição do Global Manufacturing and Industrialization Summit (GMIS) reuniu, na semana passada, líderes globais de vários países, industriais e membros da academia em Yekaterinburg, na Rússia, para debaterem os próximos passos da Quarta Revolução Industrial. O evento é uma iniciativa do Ministério de Energia e Indústria dos Emirados Árabes Unidos e da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), da qual o Brasil é membro desde 1985.

Entre os principais temas abordados, o GMIS 2019 destacou algumas das maiores inovações em Biomimética e o modo como as manufaturas podem se inspirar em sistemas da Natureza para resolver problemas humanos complexos. A iniciativa vai ao encontro da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e fomentou uma série de debates sobre economia circular, segurança alimentar, cidades futuras, segurança cibernética, evolução da impressão 3D, futuro do trabalho, entre outros aspectos fundamentais para o desenvolvimento industrial das próximas décadas.

Créditos: wam.ae

Entre os participantes de maior destaque esteve o presidente da Rússia Vladimir Putin que ressaltou a necessidade de as indústrias serem menos focadas no uso intensivo de recursos naturais e mais eco-friendly:

Estou convencido de que garantir ar limpo, água, comida, qualidade e expectativa de vida para bilhões de pessoas exige tecnologias e dispositivos técnicos drasticamente novos, que consomem menos recursos e sejam muito mais ecológicos. Essas soluções de engenharia científica, que são extremamente eficientes, nos permitirão encontrar um equilíbrio adequado entre as esferas bio e techno. Isso inclui as chamadas tecnologias inspiradas na natureza. Elas imitam processos e sistemas naturais. Elas seguem as leis da natureza.

Em colaboração com o Instituto Kurchatov, a Fundação Skolkovo e o Ministério da Indústria e Comércio da Rússia, o GMIS 2019 também anunciou sua segunda iniciativa para impulsionar a pesquisa e a implantação de tecnologias inovadoras, que levem à transformação tangível das indústrias. Com abrangência global, esse movimento visa ajudar as manufaturas a se transformarem sem agravar os desafios ecológicos, como o esgotamento de recursos e as mudanças climáticas. A iniciativa contará com trabalhos de pesquisa através de uma rede acadêmica, com foco em Biomimética e tecnologias industriais sustentáveis ​​inspiradas na natureza.

O Processo de Biotransformação das empresas

Um recente estudo científico conduzido em empresas alemãs demonstrou como funciona o processo de Biotransformação das empresas. Os resultados foram apresentados em um workshop da ManuFUTURE , em Bruxelas, pelos professores  Bauernhansl e pelo doutor Wolperdinger.

Segundo os achados, a Biotransformação segue três estágios: a bioinspiração, a biointegração e a biointeligência.

  • Os chamados produtos bioinspirados ocupam a fase inicial da Biotransformação. Eles já são amplamente encontrados nos mais diversos setores da economia, sobretudo nas indústrias. Tomam forma como braços e garras robóticos, por exemplo, que lembram a tromba de elefantes ou câmeras de vigilância inspiradas na visão dos insetos. A bioinspiração é também comumente chamada de biônica e, basicamente, busca nas estruturas vivas a inspiração para o desenvolvimento de aplicações industriais e científicas.
  • No segundo momento, o que funcionava apenas como inspiração começa a integrar o processo de inovação propriamente dito. Os produtos passam a conter em sua formulação ou em seu design o aspecto biológico inicialmente analisado. Como exemplo, podemos destacar os materiais de autocura, hoje presentes em alguns tratamentos utilizados pela Medicina.
  • "Enxame de Drones" - inteligência biointegrada

    Por fim, como fase final do processo de Biotransformação, alcança-se a inteligência. É nesse momento que ocorre, de fato, a fusão entre a Biologia, a Tecnologia da Informação e a Engenharia. Essa etapa ainda não está amplamente difundida na indústria, mas os primeiros sinais podem ser vistos em sistemas computacionais biomiméticos que utilizam a sinapse nervosa humana como referencial de processamento ou em tecnologias de Machine Learning e Sistemas Autônomos Cooperativos (também conhecidos por robótica de enxame).

Como se nota, seja na Rússia, na Bélgica ou no Brasil, os debates sobre as novas tecnologias bio-inspiradas, cada vez mais, tomam conta do cenário manufatureiro global. Através delas será possível conciliar as metas de sustentabilidade propostas por acordos internacionais, como o Acordo de Paris, e, ao mesmo tempo, fomentar o crescimento das economias e a geração de empregos.

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Nessa tarefa, a Biomimética impõe-se como uma ciência fundamental para efetivar o processo de Biotransformação dos processos produtivos, inserindo-os no conceito de economia circular em que a salvaguarda de recursos naturais e o reaproveitamento de resíduos biológicos diminuem a pegada ambiental das indústrias e estimulam o nascimento da chamada bioeconomia.


IoT reina mais uma vez entre tecnologias mais disruptivas

IoT reina mais uma vez entre tecnologias mais disruptivas 

A KPMG lançou há poucos dias o estudo "Inovação na indústria de tecnologia 2019" (Technology Industry Innovation Survey). O levantamento entrevistou 740 líderes do setor de tecnologia e analisou as dez ferramentas que irão mudar as empresas no curto prazo. Em 1° lugar entre as tecnologias mais disruptivas ficou a Internet das Coisas (IoT), considerada a ferramenta com maior potencial de modernizar os negócios nos próximos três anos.

De acordo com Felipe Catharino, sócio-diretor da KPMG no Brasil, a IoT tem grande capacidade de adoção em empresas porque "pode ser aplicada tanto em avançados sistemas de robótica quanto em pequenos gadgets, como relógios inteligentes e eletrodomésticos".

Dados recentes de outra consultoria, a norte-americana Frost & Sullivan, vão na mesma direção e confirmam o potencial disruptivo da tecnologia, ainda no curto prazo. Nos próximos três anos, os investimentos em IoT no Brasil devem ultrapassar US$ 3,29 bilhões e o acesso às soluções promete se espalhar para diversas regiões do país com o incremento da infraestrutura e o planejamento estratégico recém instituído.

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Entre os principais desafios a serem superados, os entrevistados apontam questões envolvendo segurança e agilidade na implantação dos projetos.

Quais são as outras tecnologias mais disruptivas?

Em segundo lugar como tecnologia mais disruptiva, a KPMG aponta a inteligência artificial e robótica. A chamada RPA (Robotic Process Automation) foi uma das tecnologias com maior aumento de performance em relação à ultima edição do estudo, em 2018. Saiu do nono lugar para o segundo.

tecnologias mais disruptivas

De acordo com os entrevistados, a robótica está mais associada a ganhos de eficiência e lucratividade e, na sequência, ao aumento da fatia de mercado. Mas o grande desafio ainda reside na dificuldade de adoção dessa ferramenta e na complexidade da implantação. 

Em terceiro lugar, estão Inteligência Artificial (IA) e Machine Learning. Em relação ao ano passado, perderam uma posição. A grande dificuldade para a adoção dessas tecnologias, segundo os entrevistados, está na viabilidade econômica (que carece de mais provas), em questões de cunho regulatório e na alta complexidade.

Alguns desafios ainda precisam ser vencidos

A pesquisa também revelou que o aumento dos custos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) é o maior problema enfrentado pela indústria, apesar desta área ter sido apontada também como uma das principais prioridades estratégicas. Os entrevistados apontaram também para o desafio de encontrar talentos no setor de tecnologia, o que dificulta o crescimento, sobretudo diante de cadeias de suprimentos mais complexas e demandas ainda mais específicas dos clientes.

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“As empresas líderes aproveitarão as oportunidades e criarão estratégias para garantir fluxos de receita futuros. Os desafios apresentados por aplicações emergentes podem ser resolvidos com o investimento em soluções inovadoras com benefícios a longo prazo, como, por exemplo a incorporação de análise de dados no gerenciamento do portfólio de produtos, a introdução de blockchain na cadeia de suprimentos e a expansão de serviços direcionados para produtos essenciais”, afirma Felipe Catharino, sócio-diretor de Tecnologia da KPMG no Brasil.

A pesquisa destacou ainda que as empresas menores são cada vez mais a fonte de desenvolvimentos promissores na indústria e estão empenhadas em capitalizar tecnologias mais disruptivas para novas aplicações.

V2COM: referência em IoT e Smart Systems

A V2COM consolidou-se no mercado nacional e internacional por ser um dos poucos fornecedores de soluções de IoT ponta à ponta. Por isso, tem garantido um elevado grau de customização dos projetos que se adequam com bastante profundidade às mais diferentes necessidades dos clientes, não importando o segmento de atuação, nem a localização geográfica da implantação.

Por desenvolver integralmente tanto hardware quanto software, a V2COM alcançou um padrão de tecnologia plenamente compatível com as inovações, integrando-se perfeitamente a diferentes realidades de forma bastante ágil. Por consequência, os clientes auferem elevado impacto financeiro e escalabilidade em curto intervalo de tempo.

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Plano Nacional de Internet das Coisas

Decreto institui o Plano Nacional de Internet das Coisas. Como fica o Fistel?

Decreto institui o Plano Nacional de Internet das Coisas. Como fica o Fistel?

Nesta quarta-feira (26), foi instituído o Plano Nacional de Internet das Coisas e criada a Câmara de Gestão e Acompanhamento do Desenvolvimento de Sistemas de Comunicação Máquina à Maquina e Internet das Coisas (Câmara IoT), através do decreto presidencial 9.854/2019.

O decreto define a IoT como uma "infraestrutura que integra a prestação de serviços de valor adicionado com capacidades de conexão física ou virtual de coisas com dispositivos baseados em tecnologia da informação e comunicações existentes e nas suas evoluções, com interoperabilidade".

De acordo com o texto, o Plano tem como finalidade implementar e desenvolver a Internet das Coisas no Brasil, “com base na livre concorrência e na livre circulação de dados, observadas as diretrizes de segurança da informação e de proteção de dados pessoais”.

Fica a cargo do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) a coordenação dos projetos cujo objetivo seja facilitar a implementação do Plano. Ainda, caberá à Anatel a fiscalização dos sistemas de telecomunicações, considerando as normas do MCTIC , além da definição de questões tributárias ligadas à IoT.

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O Plano Nacional de Internet das Coisas  lista como objetivos a melhoria da qualidade de vida; promoção de ganhos de eficiência e geração de empregos; aumento de produtividade e fomento à competitividade das empresas brasileiras e a busca por mais parcerias entre o setor público e o privado.

Áreas priorizadas pelo Plano Nacional de Internet das Coisas

O Plano Nacional de IoT prioriza as áreas da saúde, cidades, indústrias e rural. A indicação dos temas está por conta de um ato do MCTIC e sua respectiva priorização seguirá critérios de oferta, demanda e capacidade de desenvolvimento local.

Além disso, o plano de ação para identificar soluções e viabilizar os objetivos listados deverá estar alinhado com a Estratégia Brasileira de Transformação Digital, disposta no decreto 9.319/2018. Os temas abordados estão ligados à:

  • Ciência, tecnologia e inovação;
  • Inserção internacional;
  • Educação e capacitação profissional;
  • Infraestrutura de conectividade e interoperabilidade;
  • Regulação, segurança e privacidade;
  • Viabilidade econômica.

Câmara IoT

A Câmara de Gestão e Acompanhamento do Desenvolvimento de Sistemas de Comunicação Máquina a Máquina e Internet das Coisas, que resumidamente pode ser chamada apenas de Câmara IoT, será responsável por monitorar e assessorar a implementação do Plano Nacional de IoT.

Compete à Câmara as seguintes funções:

  • Monitorar e avaliar as iniciativas de implementação do Plano;
  • Promover e fomentar parcerias entre entidades públicas e privadas;
  • Discutir os temas do plano com órgãos e entidades públicas;
  • Apoiar e propor projetos mobilizadores;
  • Atuar com órgãos e entidades públicas para estimular o uso e o desenvolvimento de soluções de IoT.

Como colegiado não deliberativo, as reuniões e votação de matérias da pauta dispensam o quórum mínimo. A Câmara IoT será presidida pelo MCTIC e terá a participação dos ministérios da Economia, Agricultura, Saúde e Desenvolvimento Regional.

E, afinal, o que acontecerá com o Fistel?

O Fistel é uma das questões centrais quando o assunto é a viabilidade da tecnologia no Brasil. Entretanto, essa questão ainda não está clara no decreto. Decisões e definições futuras ainda serão necessárias para que, enfim, cheguemos a uma decisão definitiva sobre sua incidência.

Do jeito como a IoT está definida no documento — uma infraestrutura pela qual são disponibilizados serviços de valor adicionado (SVA) — ainda permanece a dúvida se o sistema inteiro e suas variadas aplicações seriam impactadas por uma abordagem tributária única. Por essa razão, nenhuma definição foi firmada a respeito do Fistel e das dúvidas entre a incidência de ICMS ou ISS.

Mesmo assim, é importante destacar que continua em tramitação o PL 7.656/2017. Ele reduz a zero o valor da Taxa de Fiscalização de Instalação (TFI), da Taxa de Fiscalização de Funcionamento (TFF), da Contribuição para o Fomento da Radiodifusão Pública (CFRP) e da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica (Condecine) para a IoT. A proposta já foi aprovada na Comissão de Finanças e Tributação e na de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara e aguarda apreciação na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, desde maio.

Acompanhe o caso do PL 7.656/2017

Uma outra questão tributária que permanece nebulosa refere-se à Taxa de Fiscalização de Instalação. O art. 8º do decreto cita o art. 38º da Lei 12.715/2012, que dispõe sobre o valor dessa taxa para sistemas de comunicação M2M. Pela referida lei, o valor fixado está em R$ 5,68.

Esse artigo é regulamentado pelo Decreto 8.234/2014, que definiu os sistemas M2M como dispositivos sem intervenção humana (chamado de M2M Especial). Entretanto, este último decreto 8.234 foi revogado no Art. 10º do novo decreto que institui o Plano Nacional de IoT. Pelo novo texto, como dito, cabe à Anatal regulamentar e fiscalizar os sistemas de Internet das Coisas, seguindo as normas do MCTIC.

Assim, ainda ficou aberta a possibilidade do ministério dispor sobre regras complementares para implantar o Plano. Analistas tributários acreditam que será necessária uma nova regulamentação sobre tributos para a área, dadas as indefinições presentes no decreto.

Para ler o documento na íntegra, clique aqui.


Agricultura - Dados

O que falta para a Agricultura deslanchar? Dados!​

O que falta para a Agricultura deslanchar? Dados!​

Segundo Ranveer Chandra, cientista-chefe global da Azure, a agricultura ainda é a área que mais resiste na aplicação de algumas tecnologias, como Big Data, Internet das Coisas (IoT) e Inteligência Artificial.

“Um estudo mostra que, entre 23 setores, a agricultura está na última posição em termos de transformação digital. Conexão é o maior desafio do agronegócio. Precisamos desses dados para fazer uso das tecnologias disponíveis" disse à Época Negócios.

Chandra ainda comentou sobre as dificuldades de aplicar novas tecnologias no campo, e sobre como os dados devem mudar a agricultura do futuro. Para ele, a alimentação é um dos grandes problemas da humanidade e precisa ser pensado desde já:

"Até 2050, a produção precisa aumentar em 70%, para sermos capazes de alimentar a população mundial. Não só precisamos ser mais produtivos, mas também criar alimentos mais nutritivos e sustentáveis. O único caminho que vejo é por meio dos dados. Muito do trabalho feito na agricultura hoje toma como base apenas a experiência dos agricultores. Se combinarmos esse conhecimento com dados, poderemos desenvolver algoritmos de IA que tornem o agronegócio mais produtivo. Um campo mais conectado não só fornece dados para o agora, mas ajuda a criar previsões mais efetivas para o futuro"

A tecnologia é também fundamental quando o assunto é sustentabilidade, pois uma agricultura mais precisa evita desperdícios. Por exemplo, ao mapear uma fazenda, é possível mensurar a umidade, PH, temperatura e nutrientes do solo, de tal forma que o agricultor passa a aplicar a quantidade exata de água, fertilizantes e pesticidas necessários para cada região da fazenda. Com isso, aumenta-se o rendimento e se reduzem o impacto ambiental e o custo.

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Na entrevista, Chandra ainda deu sua opinião sobre o quadro da agricultura no Brasil. Ele afirma que, como o restante do mundo, o país precisa se transformar para alcançar o próximo estágio.

"O movimento tem sido lento. Muitos países estão usando satélites para recolher dados sobre o agronegócio. Mas essa opção não é acessível e por isso não pode ser aplicada em larga escala. Os governos precisam subsidiar a tecnologia, da mesma forma que fazem com fertilizantes e agricultura. Os órgãos públicos já entendem que esses produtos são necessários para a produtividade do agricultor, mas não perceberam que os dados precisam ser colocados no mesmo pacote"

Por fim, ele ainda diz que para as novas tecnologias serem efetivamente escaladas, independente das diferenças entre as fazendas e suas regiões, é imprescindível que se estruturem mais parcerias. É importante unir aqueles que detenham a tecnologia às empresas que já tenham relacionamento com os agricultores.

Leia a reportagem na íntegra clicando aqui

Biomimética: as fábricas do século XXI serão como as florestas

Biomimética: as fábricas do século XXI serão como as florestas

Janine Benyus, co-fundadora da Biomimicry 3.8, já disse que "quando a floresta e a cidade são funcionalmente indistinguíveis, sabemos que alcançamos a sustentabilidade".

Num primeiro momento, a frase pode parecer muito otimista em um mundo marcado pela emissão excessiva de poluentes e resíduos na natureza e, sobretudo, pelo movimento que grandes nações, como os Estados Unidos e China, têm tomado na contramão de leis e acordos pró meio-ambiente.

No entanto, é expressivo o número de empresas que estão colocando a sustentabilidade em sua missão, de tal forma que um negócio não é mais considerado "bem-sucedido" se não atingir todas as métricas estabelecidas para diminuir a pegada ambiental. E isso, claro, vem acompanhado de um movimento civil mundial em que os indivíduos e suas comunidades, cada vez mais, valorizam iniciativas ditas "verdes".

Mas na prática, é possível implementar a ideia defendida por Benyus e derrubar as seculares barreiras entre cidades e florestas? Ao que tudo indica, SIM.

Factory as a Forest: as fábricas circulares do século XXI

O conceito "Factory as a Forest" (Fábricas como Florestas) foi introduzido no SB 18 Vancouver e, desde lá, tem despertado bastante curiosidade em manufaturas que desejam transformar os processos produtivos, tornando-os autossustentáveis, equilibrados e circulares como os ecossistemas da natureza.

A ideia partiu de um estudo biomimético que esmiuçou o mecanismo de funcionamento das florestas as quais, ao longo dos últimos bilhões de anos, têm se mostrado ótimas mantenedoras do status quo, sem perder a elevada capacidade de adaptação e regeneração.

O estudo serviu de base para que os processos produtivos (no caso, da empresa Interface em parceria com a Biomimicry 3.8) fossem analisados com o objetivo de encontrar meios de torná-los ainda mais eficientes, com instalações de pegada ambiental zero e elevado desempenho, tal como todos os ecossistemas globais.

Percebeu-se que, para tanto, era fundamental transformar os processos ligados à economia linear, transmutando-os para uma realidade dita circular. Sem isso, é impossível emular a natureza com perfeição, já que nela reina uma exata proporção entre o que é criado e o que é consumido (e vice-versa), num ciclo plenamente autossustentável.

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Para isso, é importante desenvolver produtos que, ao longo da cadeia produtiva, sequestrem carbono, usar materiais sustentáveis e recicláveis, optar por fornecedores com visão pró meio-ambiente e, claro, engajar a empresa como um todo para que o objetivo fique claro e atingível.

Com vistas a tornar esse conceito uma realidade prática, o estudo indicou quatro passos aparentemente simples que podem guiar qualquer organização rumo ao status "Factory as a Forest". Veja-os a seguir:

Passo 1: Identificar ecossistema de referência LOCAL

O conceito "Factory as a Forest" foi concebido para complementar a estratégia já existente das empresas e, assim, fazê-las mais verdes. A ideia não valoriza rupturas drásticas, nem mudanças em grande escala de uma única só vez. Muito pelo contrário: os esforços devem começar pequenos e crescerem à medida em que se tornem plenamente mensuráveis.

Factory as a Forest
Factory as a Forest: Penang, Malásia

Como se sabe, os ecossistemas são muito variáveis de região para região, embora todos funcionem com o objetivo final de manter o equilíbrio entre a produção e o consumo de recursos. Por essa razão, é importante descobrir, localmente, à qual região ecológica uma instalação pertence e, a partir disso, emular o ecossistema mais próximo que a abrange. Como dito anteriormente, a ideia é começar de forma setorizada.

Uma das maneiras de descobrir a ecorregião e o ecossistema em que uma empresa está inserida é acessar o mapa interativo EcoRegions. Nele, é possível navegar por todo o globo e estabelecer diferentes critérios de visualização e análise.

Com isso definido, parte-se para questões mais profundas de análise — como determinar as taxas de sequestro de carbono, de filtragem de ar, de armazenamento de nutrientes e água, suporte à biodiversidade, reciclagem de recursos — sobre o ecossistema definido. A Biomimicry 3.8 também recomenda o Ecology Pocket Guide para ajudar não-biólogos com essas definições.

Além disso, ela defende que uma imersão in loco é sempre a maneira mais eficiente de sentir-se parte da natureza e realizar uma experiência biomimética integral. Com isso, fica mais fácil fundamentar os aprendizados com o ecossistema e aplicar os conhecimentos na prática.

Passo 2: Mensurar o desempenho da instalação a ser transformada

Nesta etapa é preciso estabelecer métricas que servirão de referência para definir sucesso.

O importante neste momento é entender o padrão de desempenho do ecossistema local e, a partir disso, colocá-lo como meta a ser atingida. Para tanto, é preciso estipular padrões e benchmarks de desempenho para as instalações que serão transformadas. Como exemplo, podem ser analisados a capacidade de armazenamento e purificação de água, reciclagem de resíduos, conservação do solo e lençóis freáticos, manutenção da biodiversidade polinizadora, produção de biodegradáveis, consumo de energia limpa, entre outros.

A maior dificuldade, no entanto, é escolher os elementos certos e que conversem perfeitamente com os aspectos locais da instalação em análise. Novamente, é preciso começar de forma localmente isolada. Isso porque, quando restringimos o foco ao que é gerenciável e ao que se encaixa nas operações e na estratégia de uma empresa específica, fica muito mais simples a posterior implementação dos passos definidos como necessários.

Passo 3: Planejar os passos de implementação de melhorias

Se no Passo 2 nós conseguimos estabelecer métricas e metas de sucesso, no Passo 3 a ideia é planejar como executá-las.

Aqui, mais uma vez, é importante se apegar aos detalhes exclusivos da ecorregião e do ecossistema que a envolve. Isso, em outras palavras, significa que as definições para a unidade de uma empresa localizada em São Paulo, por exemplo, não serão válidas (ou apenas parcialmente) para uma outra unidade em Buenos Aires. Esses dois locais estão envolvidos por processos ecológicos muito distintos e cada um deles, de forma isolada, deve servir de base de emulação para as estruturas produtivas das filiais.

Um outro aspecto muito importante a ser mencionado nesta etapa é a não necessidade de se mapear tudo o que deverá ser feito. Primeiramente, porque isso é quase impossível. Depois, porque é importante deixar algumas lacunas em aberto para que o conhecimento não se limite e possa ser moldado conforme novas descobertas ocorrerem mais à frente, no momento da execução propriamente dita.

Passo 4: Implementar

A implementação requer engajar todas as pessoas e empresas parceiras que, direta ou indiretamente, estarão envolvidas nesse processo de mudança. Afinal, são elas que estarão no dia a dia das decisões e execuções e que, portanto, irão implementar todas as definições dos passos anteriores.

As implementações devem ser de curto, médio e longo prazo, sempre mensuráveis e corrigidas em ciclos. São elas também que completarão as lacunas da etapa de planejamento, trazendo à realidade os desafios que ficaram escondidos quando tudo ainda era só uma ideia.

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O Passo 4, conforme indicam as empresas que já chegaram lá, torna-se progressivamente mais complexo conforme é escalado. Muito em razão da estratégia "Factory as a Forest" ser pensada a partir de uma realidade local, que respeita as individualidades dos ecossistemas e ecorregiões. Também pelo fato de, ao aumentar o número de atores envolvidos na mudança, ficar mais difícil o estabelecimento de padrões comuns de rigor e engajamento, ao longo da cadeia produtiva.

Mesmo assim, como defende a Biomimicry 3.8, esses desafios tornam-se pequenos conforme aumente o engajamento das empresas com a sustentabilidade e o senso de compromisso e responsabilidade ambiental sejam uma prioridade estruturada. Nesse sentido, tudo leva a crer que, em alguns anos, a estratégia localizada fará cada vez mais sentido, já que diversos núcleos de mudança ao redor do mundo surgirão e, assim, somarão esforços com resultados em grande escala.

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